A haze

I have in me like a haze
Which holds and which is nothing
A nostalgia for nothing at all,
The desire for something vague.

I’m wrapped by it
As by a fog, and I see
The final star shining
Above the stub in my ashtray.

I smoked my life. How uncertain
All I saw or read! All
The world is a great open book
That smiles at me in an unknown tongue


Tenho em mim como uma bruma
Que nada é nem contém
A saudade de coisa nenhuma,
O desejo de qualquer bem.

Sou envolvido por ela
Como por um nevoeiro
E vejo luzir a última estrela
Por cima da ponta do meu cinzeiro

Fumei a vida. Que incerto
Tudo quanto vi ou li!
E todo o mundo é um grande livro aberto
Que em ignorada língua me sorri.

Monday poetry comes on Wednesday because Fernando Pessoa was born on this day in Lisbon 130 years ago. 

Translation: 1998, Richard Zenith

Photo: crossing back to Porto, May 2018

Out of place

 

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

Daniel Faria, Poesia

Men who are like places in the wrong place
Men who are like plundered houses
Like locations not on maps
Like stones not on the ground
Like orphaned children
Men without a time zone
Agitated men with no compass to rest on

Men who are like violated borders  
Like barricaded roads
Men who are drawn to choked pathways
Men spattered by all destinies
Laid off from their lives

Men who are like the negation of strategies
Like the hiding-places of smugglers
Incarcerated men opening themselves with knives

Men who are like irreparable damage
Men who are barely living survivors
Men who are like places wrenched
Out of place

Daniel Faria translated by Richard Zenith

 

Today I start counting days of absence because I failed to understand all the days of Being

Words

They are like a crystal,
words.
Some a dagger,
some a blaze.
Others,
merely dew.

Secret they come, full of memory.
Insecurely they sail:
cockleboats or kisses,
the waters trembling.

Abandoned, innocent,
weightless.
They are woven of light.
They are the night.
And even pallid
they recall green paradise.

Who hears them? Who
gathers them, thus,
cruel, shapeless,
in their pure shells?

Translation: 1985, Alexis Levitin, Inhabited Heart
Perivale Press, Los Angeles, 1985

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, Coração do Dia
Limiar, Porto, 1958

Photo: Point Omega by Don Delillo (sometimes I’m too lazy to take notes)

Não fora o Mar

Não fora o mar,

e eu seria feliz na minha rua,

neste primeiro andar da minha casa

a ver, de dia, o sol, de noite a lua,

calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,

e seriam contados os meus passos,

tantos para viver, para morrer,

tantos os movimentos dos meus braços,

pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,

e os seus sonhos seriam sem violência

como irisadas bolas de sabão,

efémero cristal, branca aparência,

e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,

e este cruel desejo de aventura

seria vaga música ao sol pôr

nem sequer brasa viva, queimadura,

pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar

e o longo apelo, o canto da sereia,

apenas ilusão, miragem,

breve canção, passo breve na areia,

desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar

e, resignada, em vez de olhar os astros

tudo o que é alto, inacessível, fundo,

cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,

iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar

e o meu canto seria flor e mel,

asa de borboleta, rouxinol,

e não rude halali, garra cruel,

Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar

e este potro selvagem, sem arção,

crinas ao vento, com arreio,

meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar

e comeria à mão,

não fora o mar

e aceitaria o freio.

Fernanda de Castro, in “Trinta e Nove Poemas”

I couldn’t find a translation of this poem. I did try to translate it myself and I think I ended up mutilating it because I was not able to translate the feeling of disquiet a lifetime staring at the sea actually has over ourselves. In the midst of all the routines, broken illusions and plans that have not been fulfilled, you can’t help yourself. You don’t surrender.

It weren’t for the sea,

and I would be happy on my street,

on this first floor of my house

to see, by day, the sun, at night the moon,

quiet, quiet, without a blow of the wing.

It weren’t for the sea,

and my steps would be numbered,

so many to live, to die,

so many movements of my arms,

little anguish, little pleasure.

It weren’t for the sea,

and your dreams would be without violence

like iridescent soap bubbles,

ephemeral crystal, white appearance,

and the rest – drops of water in my hand.

It weren’t for the sea,

and this cruel desire for adventure

would be vague music in the sun

not even live coal, burning,

little more than the perfume of a flower.

It weren’t for the sea

and the long appeal, the mermaid’s song,

only illusion, mirage,

brief song, brief step in the sand,

bursts of travel.

It weren’t for the sea

and, resigned, instead of looking at the stars

everything that is high, inaccessible, deep,

high, castles, towers, clouds, masts,

would be travelling face down through the world.

It weren’t for the sea

and my song would be flower and honey,

butterfly wing, nightingale,

and not rude halali, cruel claw,

Royall eagle defying the sun.

It weren’t for the sea

and this wild colt,

mane in the wind, harnessed,

my haughty, indomitable heart,

It weren’t for the sea

and I would eat out of hand,

It weren’t for the sea,

and would accept the bridle.